Cimento
De alguma forma esse cimento seco precisa sair de dentro. De alguma forma quebrá-lo em pedacinhos, de alguma forma respirar.
Com a sensação acimentada de nada ele vagou pela rua a procura do indizível. Porque se nada lhe cabia dentro e se ele em nada se encaixava, como esvaziar-se? Assim, tentando inventar uma música nunca ouvida, ele caminhou, pé ante pé.
E, procurando inutilmente captar os detalhes e as frestas da rua para sugar-lhes a vida, olhou ao redor, chegando a simular e a quase sentir aquela pontada de beleza dolorida tão familiar, tão triunfo. Mas a pulsão de glória das coisas não queria penetrar deveras seus poros naquele dia. Não iria cativar o amor de objeto algum, e sabia disso.
Estava triste. Estava curvado e obscuro.
Queria enlouquecer, eu acho. Mas temia, temia porque era humano. Mais que isso, porque era social e porque era lembrança pura. Suicidar-se?
Nunca! O maior desafio que se havia imposto era o de conquistar a vida pulsante em sã consciência. Melhor, conservando a memória.
Ele não sabia sobre o sacrifício. Nem eu sei.
Ele não sabia que, para atingir aquele ápice do tudo, era preciso parar de pensar. Existir em tudo é o mesmo que não existir.
Talvez o soubesse.
Não queria, pois, abrir mão daquela inteligência que lhe trazia uma felicidade fácil. E por isso se convenceu, sem perceber, a ignorar aquilo sabido...porque é bom sentir a dor da tragédia. É bom ser levado à loucura pela mais gorda tragédia.
Ele gostava de estar encurralado e morder os lábios e apertar o travesseiro em um uivo ensandecido de dor e de fúria. Assim sentia fundo. Assim podia ouvir o núcleo da Terra gemer.
Olhava as pessoas passando. Todas, sem exceção, enjauladas numa singularidade. Olhava as fotografias estroboscópicas dos passos, dos segundos. Olhava com atenção para o caos estático instaurado no espaço. E naturalmente indagava-se sem forma.
Ia caminhando aleatoriamente e cheio de melancolia. Ia derramando melancolia no chão. Transbordava o suco fedorento da melódica melancolia.
De repente, ao olhar para os lados, seu peito ardeu amarelo. Ardeu gelado como um orgasmo. A beleza estava ali e dançava para ele estendendo as mãos em súplica. Estava ali como um violino chorando.
Ele correu. Correu muito. Rodopiou e saltou para o ar, para agarrá-la, para fodê-la.
A beleza de vestido esvoaçante, de cabelos soltos e molhados, com os olhos vermelhos, com sangue no peito. A beleza como carne crua.
Naquele instante súbito ele estuprou a beleza em pleno asfalto. Com tanta violência, com tanta feiúra. Soluçava de prazer, em murmúrios de cítara.
Engoliu a beleza como um rato faria. Gulosamente, sem olhar para os lados. Firme em seu desespero. Influenciado pelo calor noturno, pela secura do ar, pela secura do peito.
Tão cruel, tão sedento e mundano. Tão triste.
Morreu ali como uma guitarra, estatelado. Fraco após o gozo.
Ergueu-se depois. Cambaleou. Vomitou cimento. Foi para casa e nunca mais lembrou o próprio nome.
Com a sensação acimentada de nada ele vagou pela rua a procura do indizível. Porque se nada lhe cabia dentro e se ele em nada se encaixava, como esvaziar-se? Assim, tentando inventar uma música nunca ouvida, ele caminhou, pé ante pé.
E, procurando inutilmente captar os detalhes e as frestas da rua para sugar-lhes a vida, olhou ao redor, chegando a simular e a quase sentir aquela pontada de beleza dolorida tão familiar, tão triunfo. Mas a pulsão de glória das coisas não queria penetrar deveras seus poros naquele dia. Não iria cativar o amor de objeto algum, e sabia disso.
Estava triste. Estava curvado e obscuro.
Queria enlouquecer, eu acho. Mas temia, temia porque era humano. Mais que isso, porque era social e porque era lembrança pura. Suicidar-se?
Nunca! O maior desafio que se havia imposto era o de conquistar a vida pulsante em sã consciência. Melhor, conservando a memória.
Ele não sabia sobre o sacrifício. Nem eu sei.
Ele não sabia que, para atingir aquele ápice do tudo, era preciso parar de pensar. Existir em tudo é o mesmo que não existir.
Talvez o soubesse.
Não queria, pois, abrir mão daquela inteligência que lhe trazia uma felicidade fácil. E por isso se convenceu, sem perceber, a ignorar aquilo sabido...porque é bom sentir a dor da tragédia. É bom ser levado à loucura pela mais gorda tragédia.
Ele gostava de estar encurralado e morder os lábios e apertar o travesseiro em um uivo ensandecido de dor e de fúria. Assim sentia fundo. Assim podia ouvir o núcleo da Terra gemer.
Olhava as pessoas passando. Todas, sem exceção, enjauladas numa singularidade. Olhava as fotografias estroboscópicas dos passos, dos segundos. Olhava com atenção para o caos estático instaurado no espaço. E naturalmente indagava-se sem forma.
Ia caminhando aleatoriamente e cheio de melancolia. Ia derramando melancolia no chão. Transbordava o suco fedorento da melódica melancolia.
De repente, ao olhar para os lados, seu peito ardeu amarelo. Ardeu gelado como um orgasmo. A beleza estava ali e dançava para ele estendendo as mãos em súplica. Estava ali como um violino chorando.
Ele correu. Correu muito. Rodopiou e saltou para o ar, para agarrá-la, para fodê-la.
A beleza de vestido esvoaçante, de cabelos soltos e molhados, com os olhos vermelhos, com sangue no peito. A beleza como carne crua.
Naquele instante súbito ele estuprou a beleza em pleno asfalto. Com tanta violência, com tanta feiúra. Soluçava de prazer, em murmúrios de cítara.
Engoliu a beleza como um rato faria. Gulosamente, sem olhar para os lados. Firme em seu desespero. Influenciado pelo calor noturno, pela secura do ar, pela secura do peito.
Tão cruel, tão sedento e mundano. Tão triste.
Morreu ali como uma guitarra, estatelado. Fraco após o gozo.
Ergueu-se depois. Cambaleou. Vomitou cimento. Foi para casa e nunca mais lembrou o próprio nome.

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