Saturday, October 21, 2006

755

É o caos. No ônibus cheio, o cansaço borbulhante preenche todo o ar. Somada a ele, a excitação esganiçada dos meninos e meninas voltando da escola após um dia inteiro de conhecimentofagia provoca espasmos de irritação nos demais passageiros. Barulho, calor, engarrafamento. E uma gracinha de menino que me olha curioso enquanto tento escrever apesar do sacolejo do veículo.
Favela da Rocinha. Mendigos e malandros involuntários querendo entrar sem pagar passagem são escorraçados pelo motorista. De quem é a culpa? Ninguém sabe. Afinal, a culpa é dela mesma. Dona do próprio nariz.

A Nativa FM tocando no rádio tem seus apelos sufocados pelo ronco dos motores. Tlac-tlac. A roleta roda. Plin-plin. De grão em grão a galinha enche o papo. Mal-humorados estamos todos: eu e os donos dos olhos murchos que contemplam (ser ver) a praia de São Conrado.
Como são pacíficas essas ondas porque nunca se cansam da inércia em que vivem! E toda a vida e beleza de seu monótono vai-vem ficam lembrando aos passageiros que não há razão para ter medo.
Seria esse um esforço vão? Talvez.
Só é certo que nós, com os olhos embotados pela fadiga e os ouvidos pouco adestrados para ouvir a voz dos oceanos, apenas deitamos a cabeça no duro encosto e dormimos um sono de mentira.

Campo florido

O campo florido não fica tão bucólico quando cada uma daquelas flores se torna viva diante dos olhos; viva e perpassada pela frieza da reprodução da vida; por aquela seqüência de reações químicas, gametas, divisões celulares.
O fato de estarem vivas confere às flores a agudeza de um metal. E assim elas perdem sua inocência virgem, e no lugar fica uma essência indizível, mas que é como que escalpelada, assassina.
Estranho pensar que um campo florido se constrói a partir da reprodução, coisa tão biológica, tão científica. Um campo florido é apenas um bando de corpos existindo mecanicamente, uma colônia de flores que poderiam ser bactérias.
Olhar o campo florido ao microscópio destrói toda sua ternura. Revela, detrás do romantismo do quadro, a perversidade inerente à vida. A perversidade de uma infecção, que é apenas proliferação de organismos. De uma infecção, que é apenas vida.
Tragicamente vida.
Passei de ônibus por um campo de flores laranjas que balançavam com o vento. Eram lindas até se tornarem bactérias. Eram lindas até terem sido olhadas através do microscópio. Eram lindas até ficarem vivas.

Saturday, October 14, 2006

Bacon tastes good

Bacon tastes good. Porc shops taste good...
Textos são só textos.
Cigarros, só cigarros.
Assim por diante:
Fedor, gordura.
E todo o resto que existe de lindo.
Talvez um dia eu aprenda a ser otimista.
Talvez um dia meu aprendiz me descubra.
Talvez...eu vivesse outra vez.
Sempre, tudo em volta.
Talvez e sempre.
Vazio, nada.
Bla bla bla repetido.
Ócio criativo.
Verdades confessadas.
Mas o que é verdade?
Pensando em seu íntimo;
O que é a verdade?
Esquece e não pensa mais...
Use drogas e morra.
Roll up for the mystery tour!!!
Referências, referências…
Pra que falar, se tudo por todos já foi dito?
Todos, tudo.
Abrangência contínua...
diferente, mas perpétua.
Amanhã, acordado e cheio de responsabilidades.
Sempre.
Ruim.
Ou não.
Clichês, sempre nossos clichês.
Idéias lançadas ao vento e metalinguagem.
Fatos, fatos, fatos.
descontinuidades.
roda mundo...roda gigante...
moinho, peão...
é bom, é ruim.
é bom, é ruim.
paixão, só palavras.
cheias de significado, por todos os lados.
palavras...
sempre incompletas, misteriosas, viciantes.
palavras para drenar nosso excesso!
Falta, silêncio das espáduas,
peito de fora, fumaça.
Tem horas em que flui.
Tem horas em que finda.
Sempre! Sempre!

Realmente

Qual é o limite entre o real e todo o resto?
Limite?
Porque os olhos, ludibriados, podem produzir qualquer sensação de real, mas a mente, essa presa, ela não se deixa ir. Dita isso-não-pode. Dita físicas, matemáticas, empirismos: lições do passado.

Pois saibam que hoje eu vi o irreal e através dos olhos fui quase capaz de atravessar uma parede. E aí o dia nublado presenciou com orgulho cada gota do meu espanto.
O coração aos solavancos e o peito querendo congelar um instante de vida, um instante de dor. Entretanto o olho pisca em sua factual limitação, e nervoso. E de repente o infinito se esvai do corpo e voa para longe como um saco de plástico. Vem o vento e oferece consolo com seus beijos gélidos, vem varrer para lá meu instante suspenso e exclamativo, para onde meus braços não o alcancem. Fica o corpo, fica a reza e as mãos trêmulas. Estômago em feroz rebuliço. E a verdade vira memória.
O peito é um cavalo, e arde. Ele grita e se esgoela em murmúrios cheios de pó. Ele grita om. Os olhos choram, a boca seca. Tudo pelo infinito. Tudo fato imperativo, que ao som de tambores graves se ergue como um rei diante da estupefação e da tragédia. E à revelia delas, imprime devagar sua pisada.
Quem dera que o infinito fosse meu. Quem dera que deixasse de ser apenas instante. Quem dera que o instante me engolisse e me diluísse em seu bojo fértil.

Só a morte daria cabo do incomensurável dilema da alma transgressora. Só ela para me empurrar rumo às beiradas do mundo, de onde escorre o sal azul da vida. Uma fonte virgem. Intocada pelo espaço ou pelo tempo. Só ela, não é mesmo?
Mas a morte tarda, essa velha. E tricota com minúcia os fios negros de sua teia.
Espero sem pressa e com medo o momento de fazer-me instante.

Enquanto meu corpo possuir limites o infinito será só uma visita. E talvez, quando ele chegar sem volta qual onda de mar revolto para destroçar todos os edifícios semânticos que laboriosamente construí, talvez nessa hora eu me arrependa. E trema.

Wednesday, October 11, 2006

Ainda

Aqui, perdida nesse mundo de bondade e controle...
E lá, distante, a lua redonda tão sábia!
Tudo o que se move. Tão sábio!
Tudo o que existe apenas...tão pleno.
No mundo há bondade; mas com ódio espumante brincando de ciranda nas entranhas.
E o controle? A abnegação! Os seres humanos...
Tudo cerceia, até a impossibilidade de ser apenas palavras.
Aqui nesse microcosmo...
achando ser possível mudar as coisas com o simples oferecimento de um amor tão doente e falso quanto o próprio amor.
Nada! Tudo mentira!
Como pode existir tamanha prisão na total ausência de muros?
O horizonte ali para ser apanhado,
ou melhor,
O horizonte para ser solvente de todos
Para comer-nos os restos e os transformar em algo mais útil.
Secretamente, bem baixinho, na ponta dos pés
A verdade é dita de si para si.
Em frente ao espelho, que nem uma reza
Falando
Sobre si mesma
Em total solidão.
A cada palavra inteira
Que profere, raspa uma lasca de pele.
E assim fica até que dela só reste o nada
E a sujeira no chão para os
Faxineiros limparem.
Mais nada.
O homem atrás do bigode
Nasceu com os olhos voltados para dentro de si.
Perguntaram-no, então
Animados
O que o homem podia ver com tamanha dádiva.
Respondeu-lhes o homem com um sorriso:
- Nada.
Era escuro dentro do homem.

Tuesday, October 10, 2006

a uma amiga que me pediu para quebrar em vírgulas

- O que queres, Amanda? Heim?
- Não sei ainda.
(silêncio). Ela ainda:
- o que você repara quando me vê?
- Não sei.
Não, ele não sabia.
Só que no fundo do peito,
Em carocinho miúdo; no centro de tudo do mundo
Brilhou uma luz:
Pequena, mais clara,
Envolta de pasta.
Ele não iria fala! Ou iria?
Falar para ela da gosminha? Daquele cubinho de gelo amarelo
Do fundo do peito?
Mas o que era mesmo que ele via? Nela?
- Heim? O que você vê?
Andou para os lados, cabeça baixa.
- Você não vê
Que também não entende! é
Também seu próprio clichê!
Desejosa de si mesma, amanda.
Desejosa de cada gota de si mesma.

Amanda, não sei bem. Digo, sentiu azul marinho, o que funcionou em seu peito, na pressão contrária
Contrária do inchaço
de receber
idéias alheias.
Ta! (martelo na mesa). Desculpa.
Como resolver aquilo? Ela precisava de
Uma justificativa plausível.
Sofria, porque no fundo de si mesma,
a pequena bolinha sabia de tudo.
“A minoria sempre esmagada”, pensou.

Perdurou, aquilo.
Lasted, se estendeu
sobre as fibras de cada fatia
da estrada esférica
de seu peito.
E do peito dele também.

Uma hora acabou,
claro.
Morreu, enfim, morreu!, disseram ambos.

Em algum momento tudo acaba,
E a sensação dessa despedida em particular,
Digo, da despedida de uma história...
Dói e envergonha.

Epílogo:

Morreu, enfim, morreu!

poooxa!

só porque essa página vai ficar muito tempo improdutiva, e porque eu mesma estou assim, resolvi aparecer e dar um alô.
agora a doente vai dormir.

Monday, October 09, 2006

Cimento

De alguma forma esse cimento seco precisa sair de dentro. De alguma forma quebrá-lo em pedacinhos, de alguma forma respirar.
Com a sensação acimentada de nada ele vagou pela rua a procura do indizível. Porque se nada lhe cabia dentro e se ele em nada se encaixava, como esvaziar-se? Assim, tentando inventar uma música nunca ouvida, ele caminhou, pé ante pé.
E, procurando inutilmente captar os detalhes e as frestas da rua para sugar-lhes a vida, olhou ao redor, chegando a simular e a quase sentir aquela pontada de beleza dolorida tão familiar, tão triunfo. Mas a pulsão de glória das coisas não queria penetrar deveras seus poros naquele dia. Não iria cativar o amor de objeto algum, e sabia disso.
Estava triste. Estava curvado e obscuro.
Queria enlouquecer, eu acho. Mas temia, temia porque era humano. Mais que isso, porque era social e porque era lembrança pura. Suicidar-se?
Nunca! O maior desafio que se havia imposto era o de conquistar a vida pulsante em sã consciência. Melhor, conservando a memória.
Ele não sabia sobre o sacrifício. Nem eu sei.
Ele não sabia que, para atingir aquele ápice do tudo, era preciso parar de pensar. Existir em tudo é o mesmo que não existir.
Talvez o soubesse.
Não queria, pois, abrir mão daquela inteligência que lhe trazia uma felicidade fácil. E por isso se convenceu, sem perceber, a ignorar aquilo sabido...porque é bom sentir a dor da tragédia. É bom ser levado à loucura pela mais gorda tragédia.
Ele gostava de estar encurralado e morder os lábios e apertar o travesseiro em um uivo ensandecido de dor e de fúria. Assim sentia fundo. Assim podia ouvir o núcleo da Terra gemer.
Olhava as pessoas passando. Todas, sem exceção, enjauladas numa singularidade. Olhava as fotografias estroboscópicas dos passos, dos segundos. Olhava com atenção para o caos estático instaurado no espaço. E naturalmente indagava-se sem forma.
Ia caminhando aleatoriamente e cheio de melancolia. Ia derramando melancolia no chão. Transbordava o suco fedorento da melódica melancolia.
De repente, ao olhar para os lados, seu peito ardeu amarelo. Ardeu gelado como um orgasmo. A beleza estava ali e dançava para ele estendendo as mãos em súplica. Estava ali como um violino chorando.
Ele correu. Correu muito. Rodopiou e saltou para o ar, para agarrá-la, para fodê-la.
A beleza de vestido esvoaçante, de cabelos soltos e molhados, com os olhos vermelhos, com sangue no peito. A beleza como carne crua.
Naquele instante súbito ele estuprou a beleza em pleno asfalto. Com tanta violência, com tanta feiúra. Soluçava de prazer, em murmúrios de cítara.
Engoliu a beleza como um rato faria. Gulosamente, sem olhar para os lados. Firme em seu desespero. Influenciado pelo calor noturno, pela secura do ar, pela secura do peito.
Tão cruel, tão sedento e mundano. Tão triste.
Morreu ali como uma guitarra, estatelado. Fraco após o gozo.
Ergueu-se depois. Cambaleou. Vomitou cimento. Foi para casa e nunca mais lembrou o próprio nome.

Saturday, October 07, 2006

ah foda-se

porra, que saco.